Em um dos meus sobrevôos a algum tempo atrás, pude perceber um rapaz andando sozinho por uma trilha num dos inúmeros bosques por onde passei.

Diferentemente de todas as pessoas que eu já havia visto, acabou chamando-me a atenção o caminhar deste. Me parecia meio perdido, andando em círculos, desesperado em busca de algo. Nessa minha ‘caminhada solitária’ não tenho o costume de fazer isso, mas resolvi abrir uma exceção: preparei a descida, pousei em um galho alto porém próximo, e o abordei.
Ele tomou um belo susto com a minha chegada. Estava ofegante com a caminhada, mas aceitou parar pra conversar um pouco. Disse estar nessa caminhada solitária a um bom tempo, e precisava de um bom papo para retomar o foco e continuar.
Senti que ele precisava desabafar e apenas fiquei escutando…
“Sabe Albatroz, estou até agora tentando descobrir por qual motivo o meu foco se dissipou, ou até mesmo eu embarquei nessa viagem. Confesso que hoje, não conseguirei definir pra você nem os porquês, nem o objetivo de tudo isso. É como sair em busca de algo certo, e nas dúvidas geradas a cada ação que você pratica quando está sozinho, você perder totalmente a objetividade.
Sei que me encaixo em diversas situações, passo tranquilamente a qualquer prova que queira me submeter. Porém não vejo como continuar me apoiando no material para continuar vivendo. A vida é o quê afinal? É a busca pelo quê? Tenho visto pelos lugares por onde passo, gente experiente, vivida, sofrida, que para qualquer situação corriqueira pode dizer que seguiu conforme a sociedade, dançou conforme a música. Aí quando pergunto: você VIVEU? A resposta é sempre tímida, como se tivesse abdicado de muitos sonhos em detrimento de outras coisas que nesse momento não fazem o menor sentido.
Isso me dá forças para continuar, mas há uma maldita razão dentro da minha cabeça que grita pedindo que eu retorne à mesmisse de sempre, que eu tenha uma “vida normal”, embora sem poder me prometer a felicidade.
São por volta de oitenta anos, não é isso Albatroz? Não é isso que nós humanos temos? Qual é a verdade em “vivendo e aprendendo” se em determinado momento nós trocamos o “aprendendo” pelo “sobrevivendo”? Onde está essa vírgula, esse fino momento onde perdemos o controle total de nossas vidas?
Eu daria o mundo para ter um primogênito. Vê-lo nascer, aprender a andar, a sorrir, a chorar. Vê-lo entrar em conflito comigo. Vê-lo me apoiar, vê-lo se acostumar a ser apoiado por mim, ou mesmo criticado por mim. Mas tenho um medo meu amigo Albatroz. Que um dia essa sociedade da qual eu abri uma certa distância o roube de mim. Convença-o de que “vivendo e aprendendo” é pior do que “se escravizando e sobrevivendo” como as pessoas estão acostumadas a fazer.
Esses são os porquês que me incomodam meu amigo. E eu te agradeço por me ouvir, por deixar que eu os coloque um pouco pra fora. Pois agora sinto que tenho um fôlego a mais para continuar minha caminhada. Em busca do foco, da razão de estar caminhando. Obrigado!”.
Do alto de onde estava, olhei bem pra ele e disse: meu amigo viajante, vocês seres humanos são muito complicados. Porque vocês mesmos se complicam, a vida não é complexa desse jeito. Mas ela está cada dia mais complexa. Acho que você está certo na sua busca. Mas nunca abandone completamente seus instintos, como também não viva somente com eles. A razão está na simplicidade com a qual a gente vê a vida. Já que você descobriu o caminho, prossiga com ele. E não tenha medo de ter o seu primogênito. Ele, tal qual você será um ser humano, e nem você poderá evitar isso.
Faça uma boa viagem. Descubra-se. Mas não se esqueça de se estabelecer em algum lugar, para poder aceitar os desafios que a vida traz. Adeus.

Levantei vôo. Agora estou no alto. Céu azul, meio de tarde. Ficou um pouco de mim naquele viajante. E bastante dele em mim.
Vivendo e aprendendo…